A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (13), a quarta fase da Operação Sem Desconto, que investiga um dos maiores esquemas de fraudes já descobertos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O ex-presidente da autarquia, Alessandro Stefanutto, foi preso em Florianópolis, em meio a uma megaoperação que também cumpriu mandados contra ex-diretores, empresários e políticos. Segundo a PF, as irregularidades podem ter desviado mais de R$ 6,3 bilhões de aposentadorias e pensões entre 2019 e 2024.
Operação nacional contra esquema bilionário
Ao todo, foram cumpridos 63 mandados de prisão e busca e apreensão em 14 estados e no Distrito Federal, envolvendo suspeitos de corrupção, estelionato previdenciário e organização criminosa. As ações foram realizadas em Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins.
As investigações revelaram um esquema montado para descontar valores indevidos diretamente dos benefícios de aposentados e pensionistas, simulando a filiação dessas pessoas a associações que, na prática, não prestavam nenhum serviço. Essas entidades cobravam mensalidades supostamente referentes a benefícios como “assistência jurídica” ou “convênios de saúde”, mas o dinheiro ia parar em contas de integrantes do grupo criminoso.
Quem são os principais alvos da operação
Entre os presos, além de Stefanutto, estão figuras de alto escalão do antigo comando do INSS:
• Antônio Carlos Antunes Camilo, conhecido como Careca do INSS;
• André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios do INSS;
• Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS;
• Thaisa Hoffmann, empresária e esposa de Virgílio;
• Vinícius Ramos da Cruz, presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT);
• Tiago Abraão Ferreira Lopes, diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade, Carlos Lopes;
• Cícero Marcelino de Souza Santos, empresário ligado à Conafer;
• Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior, também ligado à Conafer.
Além disso, o ex-ministro da Previdência Ahmed Mohamad (José Carlos) Oliveira é alvo de mandado de busca e apreensão e passará a usar tornozeleira eletrônica. O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e o deputado estadual Edson Araújo (PSB-MA)também são investigados.
Como funcionava o esquema de fraudes
O golpe consistia em realizar descontos mensais automáticos dos benefícios de milhões de aposentados, sem qualquer autorização. As vítimas acreditavam estar recebendo o valor integral de suas aposentadorias, mas parte do dinheiro era desviada sob a justificativa de contribuição a associações inexistentes.
Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), 11 entidades foram identificadas como parte do esquema, e seus contratos foram suspensos. Entre elas, estão a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer) e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA).
O esquema, segundo a PF, envolvia fraudes em sistemas oficiais do INSS, corrupção de servidores e a criação de um verdadeiro “mercado paralelo” de dados de beneficiários.
Reação do governo e devolução dos valores
Após o escândalo vir à tona, o governo federal anunciou a devolução dos valores descontados indevidamente. Até agora, mais de 6 milhões de beneficiários relataram descontos não autorizados, e 4,8 milhões deles já estão aptos a receber o dinheiro de volta.
A devolução está sendo feita em parcela única, sem lista de prioridade. O prazo para contestar os descontos foi prorrogado até 14 de fevereiro de 2026. As reclamações podem ser feitas por três canais oficiais:
• Meu INSS (site ou aplicativo), no serviço “Consultar Descontos de Entidades Associativas”;
• Central 135, com atendimento gratuito de segunda a sábado, das 7h às 22h;
• Agências dos Correios, que oferecem suporte gratuito.
Quem é Alessandro Stefanutto
Alessandro Stefanutto é advogado, mestre em Gestão e Sistema de Seguridade Social pela Universidade de Alcalá (Espanha), e filiado ao PDT. Ele foi nomeado presidente do INSS em julho de 2023 pelo então ministro Carlos Lupi (PDT), e exonerado em abril de 2024, após o início das investigações.
Stefanutto também atuou como procurador-geral federal junto ao INSS entre 2011 e 2017 e participou do gabinete de transição entre os governos Bolsonaro e Lula como consultor em Previdência Social.
Defesas negam irregularidades
A defesa de Stefanutto afirmou em nota que ainda não teve acesso à decisão judicial e classificou a prisão como “completamente ilegal”, alegando que o ex-presidente sempre colaborou com as investigações.
“Seguimos confiantes de que sua inocência será comprovada ao final dos procedimentos”, diz o texto.
O deputado Euclydes Pettersen também se manifestou, dizendo que nunca teve vínculo com o INSS e que “apoia as investigações”. Já o advogado de Careca do INSS informou que seu cliente “já está preso desde setembro” e que ainda desconhece o teor da nova decisão.
Escândalo abala a imagem do INSS
O caso gera enorme repercussão política e abala a credibilidade do INSS, justamente em um momento em que o governo tenta recuperar a confiança dos beneficiários. O esquema, segundo especialistas, representa um dos maiores escândalos de corrupção na história recente da Previdência Social brasileira.
A Polícia Federal e a CGU prometem seguir com as investigações, e novas fases da operação não estão descartadas.


