Enquanto cresce o turismo e os investimentos imobiliários, município enfrenta desafios estruturais que ameaçam suas praias e a qualidade de vida da população
Com mais de 40 praias cercadas por Mata Atlântica, águas cristalinas e vista privilegiada para a Baía Norte, Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis, se consolidou como um dos destinos turísticos mais procurados de Santa Catarina. Mas o crescimento desordenado, somado à falta de investimentos em saneamento básico e infraestrutura urbana, acendeu um alerta vermelho: até quando o município vai sustentar esse ritmo sem comprometer o meio ambiente, a saúde pública e o setor econômico?
Verão expõe fragilidade: de 16 mil a 100 mil pessoas em semanas
Durante a baixa temporada, o município tem cerca de 16 mil moradores fixos. No entanto, esse número explode para mais de 100 mil pessoas no verão, com a chegada de turistas e moradores temporários, segundo estimativas da própria Prefeitura. O problema é que a estrutura da cidade não acompanha esse salto populacional.
Um dos principais gargalos é o saneamento básico. Dados do Censo 2022 do IBGE revelam que apenas 16,73% dos imóveis em Governador Celso Ramos estão conectados à rede pública de coleta e tratamento de esgoto — número bem abaixo da média nacional e distante de municípios vizinhos mais estruturados.
Esgoto, balneabilidade e riscos ao turismo
As consequências da falta de saneamento se tornam visíveis (e sentidas) durante o verão: mau cheiro nas praias, esgoto a céu aberto, riscos à saúde pública e prejuízos ao turismo e ao setor imobiliário.
Segundo Leila Martini, corretora de imóveis e moradora há mais de 30 anos, os impactos já são percebidos pelos clientes:
É cada vez mais difícil vender ou alugar quando há dúvida sobre a qualidade da água. A praia é nosso maior patrimônio, e precisamos preservá-la com urgência”.
afirma
O problema também afeta a balneabilidade — qualidade da água para banho — monitorada pelo IMA/SC. Além dos testes estaduais, a Prefeitura contratou um laboratório particular para fiscalizar com mais agilidade a presença de lançamentos clandestinos de esgoto nas praias.
Iniciativa privada tem papel decisivo, mas não suficiente
Em áreas valorizadas como Palmas do Arvoredo e Gaivotas, os sistemas de esgoto foram implantados por associações de moradores e construtores, com estações de tratamento (ETEs) modernas e estruturas doadas ao poder público. Um exemplo é a ETE de Palmas, com capacidade para 12 mil pessoas e cobertura para mais de 3.200 imóveis.
Desde 2022, o sistema passa por ampliação, com investimentos de R$ 6 milhões feitos pela iniciativa privada. Já em Gaivotas, outra ETE foi construída e doada pela Associação dos Construtores, com capacidade para 10 mil habitantes e rede coletora de 16,5 km.
Apesar disso, a 2ª Vara Cível de Biguaçu, atendendo a pedido do Ministério Público, determinou que o município obtenha uma nova Licença Ambiental de Operação e mantenha monitoramento rigoroso da qualidade do esgoto tratado.
Fiscalização revela falhas graves: 7 em cada 10 ETEs inoperantes
A Fundação Municipal de Meio Ambiente lançou recentemente uma operação de fiscalização para combater o despejo irregular de esgoto. E os resultados assustam: em 70% dos condomínios vistoriados, as ETEs não estavam funcionando corretamente.
“De cada 10 locais visitados, 7 apresentavam irregularidades graves”, revelou Josué Ocker da Silva, presidente da fundação. A meta da operação é garantir que, na próxima temporada, 100% das estações estejam operando dentro dos padrões exigidos.
URAs e medidas emergenciais tentam frear contaminação
Para tentar mitigar os efeitos da poluição, a Prefeitura instalou 12 URAs (Unidades de Recuperação Ambiental) em pontos críticos de lançamento de esgoto. Os equipamentos são capazes de remover até 90% das impurezas antes que a água chegue ao mar.
Além disso, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Mobilidade trabalha na elaboração de um projeto de saneamento básico municipal que será submetido ao Ministério das Cidades para tentar captar recursos federais.
Concessão do saneamento pode virar realidade
Diante da complexidade do problema e da limitação orçamentária do município, a Prefeitura estuda conceder os serviços de saneamento à iniciativa privada, com apoio técnico da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O modelo segue os moldes de Parcerias Público-Privadas (PPPs), que já transformaram setores como energia, aeroportos e rodovias no país.
“O município já iniciou conversas e está avaliando o melhor formato para essa concessão”
afirma Matheus Siqueira, secretário de Desenvolvimento Urbano.
O objetivo é atrair empresas com capacidade de investimento e know-how técnico, com metas contratuais de universalização e qualidade.
Sociedade civil cobra urgência e prazos
Entidades representativas da população e do setor produtivo estão cada vez mais atentas e exigentes. A Associação de Moradores de Palmas do Arvoredo (AMOPA) criou comissões para acompanhar de perto a situação.
Para o presidente da entidade, Flávio Peng, a paciência está se esgotando:
“As ações paliativas dos últimos anos não são suficientes. Precisamos de obras estruturais, com prazos definidos, fiscalização ativa e transparência total”.
O advogado Daniel Luz, que representa a Associação dos Construtores, é direto:
“O que queremos é um compromisso público real com o saneamento. Esse é um tema que ultrapassa a política e mexe com a saúde, a economia e o futuro da cidade”.
Santa Catarina atrás do Paraná: dados escancaram o atraso
Comparado ao estado vizinho, o atraso de Santa Catarina é evidente. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que:
• Paraná trata 76% do esgoto que gera.
• Santa Catarina trata apenas 36%.
A diferença se traduz em praias limpas, menos doenças, mais turistas e maior valorização imobiliária.
O que está em jogo?
A crise do saneamento em Governador Celso Ramos não é apenas uma questão técnica. Está diretamente ligada à preservação ambiental, saúde pública, justiça social e desenvolvimento econômico.
A cidade vive um ponto de virada: ou investe com seriedade em estrutura ou corre o risco de ver seu maior atrativo — suas praias — se transformarem em zonas de exclusão ambiental e social.
Fonte: ndmais.com.br – ND+


