Moradores retiram 74 corpos da mata e formam fila de mortos na praça
A megaoperação policial desencadeada no Rio de Janeiro chegou ao patamar mais letal da história do estado. Na manhã desta quarta-feira (29), moradores do Complexo do Alemão levaram 74 corpos até a Praça São Lucas, no interior da comunidade, elevando o número total de mortos para 132 — mais do que o dobro do saldo oficial apresentado pelo governo, que registrava até então 58 vítimas.
Os cadáveres foram recolhidos por moradores ao longo da madrugada, vindos da mata da Vacaria, situada na Serra da Misericórdia, área onde aconteceram os confrontos mais violentos entre policiais e traficantes. As vítimas foram colocadas na carroceria de caminhonetes e veículos comunitários. Imagens mostram corpos enfileirados no asfalto, cobertos por lençóis, panos e cobertores, enquanto moradores tentavam reconhecer os mortos levantando os tecidos.
A cena chocou o país: pessoas chorando, pais identificando filhos, crianças acompanhando as buscas e dezenas de moradores reunidos ao redor dos corpos. Em meio ao desespero, um grupo rezou um Pai Nosso.
“Como pode destruir tantas famílias, tantas vidas? E ficar por isso mesmo?”
disse uma mãe ao jornal O Globo, passando a mão no rosto do filho morto.
Moradores relatam ainda que alguns corpos estavam desfigurados, muitos com marcas de tiros, e que parte deles permaneceria na mata se a própria comunidade não tivesse ido buscar.
Operação é considerada a mais letal da história do Rio
Segundo o Palácio Guanabara, a operação foi planejada durante meses e tinha como objetivo cumprir mandados de prisão contra integrantes de uma facção criminosa interestadual. Parte dos suspeitos seria do Rio e parte teria vindo da Região Nordeste, principalmente da Bahia, buscando refúgio em comunidades cariocas.
Números oficiais da operação até agora:
• 81 presos
• 75 fuzis apreendidos
• 2 pistolas
• 9 motocicletas
• Veículos clonados
• Coletes e rádios comunicadores
A Secretaria de Segurança Pública afirma que criminosos montaram barricadas e emboscadas para impedir a entrada da polícia e que houve resistência armada intensa. Moradores, no entanto, denunciam que tiros continuaram mesmo após a fuga de suspeitos e que houve disparos dentro de áreas residenciais. Relatos indicam dificuldade de socorrer feridos, já que ambulâncias teriam sido impedidas de entrar em alguns momentos.
Mortes ainda não esclarecidas e números desencontrados
Na terça-feira (28), o governo divulgou 64 mortes. Na manhã desta quarta, o governador Cláudio Castro (PL) reduziu oficialmente o número para 58, sem explicar por que o total anterior foi alterado. Entre as vítimas confirmadas estão:
✅ 4 policiais civis
✅ 3 policiais militares
✅ 2 homens apontados como traficantes da Bahia
✅ 4 moradores do Alemão
✅ 3 inocentes atingidos por bala perdida:
• Um morador de rua, baleado pelas costas
• Uma mulher ferida dentro de uma academia — já recebeu alta
• Um homem atingido em um ferro-velho
Os corpos levados pelos moradores ainda não constam no balanço oficial. Todos deverão passar por perícia para comprovar relação direta com a operação.
Saúde e serviços fechados dentro da comunidade
A Secretaria Municipal de Saúde informou que cinco unidades de Atenção Primária precisaram fechar temporariamente devido aos confrontos. Escolas e creches também não abriram, e moradores relatam falta de transporte, desabastecimento de água e dificuldade para comprar alimentos e remédios.
Voluntários montaram pontos de apoio com água potável e primeiros socorros. Em grupos de mensagens, moradores alertavam sobre regiões com tiroteio, corpos encontrados e ruas interditadas.
ONU se diz “horrorizada” e cobra investigação
O caso repercutiu internacionalmente. A ONU, por meio do Escritório de Direitos Humanos, divulgou nota oficial no X (antigo Twitter):
“Estamos horrorizados com a operação policial em andamento nas favelas do Rio de Janeiro, que supostamente já resultou na morte de mais de 60 pessoas. Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das ações policiais nas comunidades marginalizadas do Brasil. Pedimos investigações rápidas e eficazes.”
A ONU também lembrou que o Brasil tem obrigações internacionais referentes à proteção da vida, ao uso proporcional da força e ao respeito aos direitos humanos.
Governo federal acompanha situação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reúne nesta quarta com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para discutir os desdobramentos da operação.
Lewandowski afirmou que não recebeu pedido de apoio do governo estadual antes da megaoperação.
Parlamentares da bancada fluminense cobraram esclarecimentos formais do governo estadual e pedem a presença de representantes da Segurança Pública no Congresso para detalhar protocolos e justificativas.
Operação dividiu opiniões na política e no país
Governistas e setores da segurança pública defendem a ação como necessária para enfrentar o crime organizado e dizem que a facção alvo da operação expandia a atuação nacionalmente.
Organizações civis, entidades de direitos humanos e moradores denunciam execuções, excesso de força, omissão do Estado e abandono pós-operação.
Juristas consultados afirmam que a diferença nos números e a retirada de corpos por moradores sem presença do Instituto Médico Legal levantam dúvidas graves sobre transparência e preservação de provas.
Conclusão
A megaoperação no Complexo do Alemão ultrapassa o limite das estatísticas policiais e entra para a história como uma das maiores tragédias urbanas do país.
Enquanto o governo do Rio sustenta que agiu dentro da legalidade, moradores exibem o rastro de violência: dezenas de corpos, famílias destruídas e uma comunidade mergulhada na dor.
A cobrança internacional agora aumenta a pressão sobre o estado, que terá de explicar não apenas os números, mas também a forma como essa operação foi conduzida — e por que tantas mortes ocorreram em um único dia.
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Fonte: NSC notícias


